ANALOGIA

Relação de semelhança entre duas coisas. De ampla aplicação na literatura, as analogias estabelecem-se entre textos, personagens, estilos, ideias, conceitos, autores, etc. Por esta capacidade de instaurar um princípio de identidade entre coisas que, genericamente, são desiguais, a analogia aproxima-se de figuras como a alegoria, a comparação, a metáfora e o símile. Diz-se que certos textos constituem analogias ou são análogos de outros, por exemplo, alguns contos de Chaucer de The Canterbury Tales (c.1387-1400) são versões análogas de outras histórias precedentes que se encontram no Decameron (1351-53)  de Boccaccio ou no Confessio amantis (c.1386-1390) de John Gower. Um texto ou objecto é análogo de outro quando se estabelecem entre ambos uma determinada correspondência, mas não em todas as relações possíveis de determinar. Tomada isoladamente, a analogia não possui carácter probatório, daí que seja necessário completá-la com outras formas de conhecimento.

Da forte tradição filosófica do termo, interessará mais à literatura o procedimento analógico praticado por Platão, na República (VI, 508) e no Timeu (31b-32a). Na República, Platão estabelece uma analogia entre o Sol e o Bem: “É o Sol, que eu considero filho do Bem, que o Bem gerou à sua semelhança, o qual Bem é, no mundo inteligível, em relação à inteligência e ao inteligível, o mesmo que o Sol no mundo visível em relação à vista e ao visível.” (508b-508c). Esta analogia entre o Sol e o Bem estende-se à relação entre um pai e um filho, pois o Bem criou o Sol à sua semelhança. Aristóteles também se referiu à analogia como um dos modos de formação da metáfora, aquela que transporta “para uma coisa o nome de outra” (Poética, 1457b). A partir daqui, Aristóteles dá-nos vários exemplos de relações analógicas que assistem a esta forma de criação metafórica: “A ‘urna’ está para ‘Dioniso’, como ‘escudo’ para Ares’, e assim se dirá a urna ‘escudo de Dioniso’, e o escudo, ‘urna de Ares’. Também se dá a mesma relação, por um lado, entre a velhice e a vida, e por outro lado, entre a tarde e o dia; por isso a tarde será denominada ‘velhice do dia’, ou, como Empédocles, dir-se-á a velhice ‘tarde da vida’ ou ‘ocaso da vida’.“ (Ibid., id.). Aristóteles comentou ainda que a capacidade de bem estabelecer relações analógicas é prova da genialidade de um poeta.

Uma analogia procede sempre por identificação das semelhanças entre dois objectos genericamente diferentes; por isto se distingue da comparação, que pode estabelecer quer uma relação de semelhança quer uma relação de dissemelhança entre dois objectos. Estabelecemos uma analogia entre dois textos, por exemplo, para dizer o que os aproxima um do outro; se quisermos dizer o que os separa, mesmo na sua eventual similitude, estabelecemos uma comparação. O que é comum aos dois processos é a identificação de correspondências entre dois objectos. E, como observou John Stuart Mill, em A System of Logic (III, xx, 1-3), só quando o grau de similitude é muito grande e a diferença muito pequena, o procedimento analógico pode ser considerado uma indução válida.

Recorda Chaïm Perelman que “nunca ninguém contestou o papel heurístico das analogias: quando se trata de explorar um domínio desconhecido, de sugerir a ideia daquilo que não é cognoscível, um modelo extraído de um domínio conhecido fornece um instrumento indispensável para guiar a investigação e a imaginação.” Para além da função heurística da analogia, frequente no discurso científico, teológico ou oratório, podemos acrescentar uma função irónica, visível em textos argumentativos e/ou críticos.

Veja-se o seguinte caso de Eça de Queirós, em resposta aos críticos do seu romance Os Maias, em especial Fialho de Almeida a quem Eça se dirige desta forma que: “Os Franceses falam muito do espalhafato que faz Satanás quando o mergulham dans un bénitier. Eu nunca assisti a esta escandalosa afronta feita ao venerável pai da mentira; nem você também, suponho eu. No entanto, imagina você bem como Belzebu berrará e escoucinhará ao sentir o contacto untuoso do detestado líquido. Pois, querido amigo, assim eu escoucinhei e berrei, enquanto você, com mão dura e forte, me estava mergulhado na água benta da sua crónica sobre Os Maias. Você concordará que esta analogia é rigorosa. Eu, com efeito represento para você Satanás, o pai de toda a falsidade.” (“A crítica a Os Maias”, in Notas Contemporâneas, Obras Completas, vol.15, Círculo de Leitores, Lisboa, 1981, p.213). Enquanto na função heurística da analogia o que se pretende é alcançar uma certa forma de conhecimento, a função irónica pretende anular a validade do conhecimento ou de certos juízos de valor apriorísticos; nesta forma de analogia, não há geralmente restrições, podendo inclusive conter elementos de auto-destruição.

O raciocínio analógico é tão útil ao autor como ao leitor: ele dá a ambos a possibilidade de estabelecer semelhanças entre coisas. Podemos encontrar este tipo de raciocínio desde os primeiros registos literários portugueses. Diz D. Duarte na abertura do Livro de Ensinança de bem Cavalgar Toda a Sela (antes de 1433) que o coração do homem “é semelhante aa moo do moinho, a qual botada per força das auguas nunca cessa de seu andar, e tal farinha dá como a semente que moe.” No processo criativo, um autor terá também em consideração as personagens criadas e as personagens a criar, as personagens extraídas da vida real e as personagens nadas; no processo crítico, um leitor pode avaliar, segundo a sua própria perspectiva, não só a relação analógica conseguida pelo autor para esses casos como também outras relações que entretanto venha descobrir com base na investigação dos termos comparados. O mesmo é válido para todos os outros aspectos da criação literária. É frequente a crítica estabelecer analogias entre escritores. Alfred Harbage, em The Shakespeare-Dickens Analogy (1975), desenvolve este aspecto. Também o faz, por exemplo, Túlio Ramires Ferro entre Eça de Queirós e Voltaire: “Eça, autor de contos filosóficos, aparece-nos como uma espécie de ‘filósofo’ empirista, cético e amenamente irónico; discípulo de Voltaire; partidário do progresso e optimista quanto à capacidade de o homem realizar plenamente todas as suas virtualidades na história e pela história. Estas afinidades tornam-se mais evidentes, se nos lembrarmos que tanto Eça como Voltaire utilizaram o conto com os mesmos propósitos…”…(“O conceito de ‘civilização’ nos Contos de Eça de Queirós”, Estrada Larga, vol. 1, s.d.). Um outro aspecto também sujeito a estes esquemas analógicos é o tema, que, aliás, é o ponto de partida para esse ensaio. Por exemplo, se quisermos estudar o texto A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, e concentramos a nossa atenção na oposição cidade/campo, podemos encontrar analogias, sem sair da obra eciana, em O Conde d’Abranhos, onde o narrador Z. Zagalo se insurge contra a cidade, em A Capital, a cidade é igualmente repudiada pelo protagonista Artur, e, tal como Jacinto de A Cidade e as Serras, sentir-se-á degenerar, e em Os Maias, a oposição também pode ser identificada no citadino Carlos da Maia e no provinciano João da Ega. Também é frequente estabelecer analogias entre personagens. Recuperando estes exemplos de Eça, o Jacinto do conto “Civilização” assemelha-se ao Jacinto de A Cidade e as Serras, já que ambos são habitantes de cidades-capitais que abandonam para se refugiarem no campo e ambos partilham o mesmo pessimismo pela vida. As (muitas) diferenças entre os dois textos ecianos pertencem à literatura comparada, que tanto pode trabalhar as diferenças como as semelhanças; uma leitura analógica apenas se pré-ocupa do estabelecimento das semelhanças, portanto, por ser um método limitado, não possui verdadeiro valor científico. Tal como na lógica formal, também na literatura a analogia não tem (ou não deve ter) valor conclusivo ou demonstrativo, pois decorre sempre de uma probabilidade ou de registo de probabilidades.

Texto retirado de:

http://www.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/A/analogia.htm